B99 higiene pessoal

Os brasileiros estão consumindo cada vez mais produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos próprios para crianças e essa é uma boa notícia para a saúde infantil. Mas o acesso da população poderia ser ainda maior se o processo de regularização sanitária fosse desburocratizado. Isso traria mais competição entre as empresas, inovação ao consumidor e geraria mais empregos em toda a cadeia produtiva. Essa é a conclusão a que se chega ao analisar a evolução e as dificuldades enfrentadas pelo segmento nos últimos anos.

Produtos infantis de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (HPPC) seguem normas próprias para adequá-los às características e necessidades dos pequenos. “Os produtos destinados às crianças contêm restrições específicas de substâncias em sua composição para reduzir o risco de sensibilização, já que a sua barreira cutânea é menos efetiva”, explica a pediatra Vânia Oliveira de Carvalho, presidente do Departamento Científico de Dermatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

O pediatra Jairo Len, membro do departamento materno-infantil do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, concorda e dá exemplos: “As maquiagens são seguras, os xampus não ardem os olhos, os sabonetes contêm maior quantidade de glicerina e outros agentes hidratantes, já que a pele das crianças é mais sensível e tem o pH diferente da pele do adulto”. Outra vantagem, segundo o médico, é tornar a experiência de higiene pessoal mais agradável para o público infantil. “Esses produtos contam com aromas, cores e texturas desenvolvidos para encantar a criançada, tornando o cuidado com a higiene um momento gostoso e divertido”, explica Len.

A opinião é compartilhada por Dóris Rocha Ruiz, diretora de Orientação aos Pais da Associação Brasileira de Odontopediatria (ABO). “Além de apresentar uma formulação diferenciada, para atender as necessidades específicas desse público, cremes dentais e enxaguatórios bucais infantis têm sabores próprios para as crianças, o que estimula a higiene oral”, lembra Dóris. “Isso é ótimo, pois os hábitos adquiridos durante a infância se mantêm por toda a vida”.

Ampliação do segmento

   O consumo desses produtos cresce a cada ano. Segundo dados da consulto- ria Euromonitor, o segmento de HPPC infantil passou de vendas anuais de R$ 2,7 bilhões em 2011 para R$ 3,9 bilhões em 2016, um aumento de 45,6% em cinco anos (os números não incluem fraldas descartáveis, que constituem um mercado à parte). O consumo subiu inclusive nos últimos dois anos, apesar da crise econômica do País. “Um dos principais destaques do período foram os produtos para cabelo, que representam um terço do segmento e cresceram 83,3% desde 2011”, revela Daniel de Oliveira, responsável pela área de Inteligência de Mercado da Associação Brasileira de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).

Embora o mercado venha se am- pliando, os especialistas acreditam que o acesso a esses itens poderia ser ainda maior se os fabricantes não enfrentassem tanta dificuldade burocrática para colocar seus produtos no mercado. “A imprevisibilidade de prazo para lançamento dos produtos atrapalha o planejamento das indústrias, desestimulando os investimentos”,afirma Renata Amaral, gerente de Assuntos Regulatórios da ABIHPEC.

O problema, segundo ela, está relacionado ao pro

cesso de regularização sanitária desses itens, que leva em média 6 meses para produtos novos e ainda mais tempo para pequenas alterações de rotulagem. “Além de desencorajar investimentos, a burocracia inibe a competição entre empresas, que gera produtos ainda mais inova- dores e acessíveis aos consumidores”, afirma João Carlos Basílio, presidente da ABIHPEC. “Isso acaba refletindo também na menor geração de empregos ao longo de toda a cadeia produtiva.” A ABIHPEC tem uma proposta para aprimorar a regularização de produtos infantis, que mantém as normas que garantem a eficácia e a segurança desses produtos, mas simplifica os procedimentos burocráticos. A entidade vem tentando sensibilizar as autoridades públicas sobre as vantagens que a mudança proporcionaria ao País.

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Indústria propõe simplificar regularização sanitária
Mudança preserva normas que garantem eficácia e segurança, mas reduz a burocracia e promove mais inovação no setor

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Em todo o mundo, os fabricantes do setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos devem respeitar normas especiais em suas linhas de produtos voltados ao público infantil. Mas o Brasil impõe uma exigência adicional que não existe na Europa, nos Estados Uni- dos e praticamente em nenhum outro país do mundo: aqui, além de obedecer às regras, as empresas precisam obter autorização prévia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para colocar seus produtos no mercado.

O processo consiste em enviar relatórios sobre todas as características do produto, incluindo testes feitos pela empresa, acompanhados de uma imagem do rótulo e aguardar a análise da documentação. A Anvisa não realiza testes, apenas avalia se as especificações apresentadas atendem as exigências da lei. Esse processo tem levado, em média, seis meses, e precisa ser repetido sempre que o fabricante quiser fazer qualquer mudança na composição ou na embalagem do produto. “Estamos acompanhando o caso de uma empresa que quer simplesmente tirar uma palavra do rótulo de um produto e aguarda a autorização há 235 dias”, conta Renata Amaral, gerente de Assuntos Regulatórios da ABIHPEC. Segundo ela, a demora e a imprevisibilidade de prazo atrapalham o planejamento das indústrias, desestimulando os investimentos.

Controle pós-mercado

A ABIHPEC propõe que o Brasil adote o mesmo procedimento que já é usado aqui com outros itens de HPPC e que no mundo todo vale também para os produtos infantis: o chamado controle pós-mercado. “Conforme previsto na lei desde 1976, é responsabilidade do fabricante seguir todas as normas e fazer todos os testes para disponibilizar produtos seguros no mercado, mas é liberado da autorização prévia, estando sujeito a todas as penalidades em caso de infração sanitária de competência da Anvisa na monitorização pós mercado”, explica Renata. “Trata-se apenas de simplificação do processo administrativo e concentrar esforços onde devemos – as exigências sanitárias em relação aos produtos permanecem as mesmas”. Como ocorre em outros países, a vigilância sanitária manteria instrumentos efetivos para avaliar a conformidade dos produtos e intervir em casos de irregularidade, prevenindo riscos à saúde do consumidor.

Segundo a gerente de Assuntos Regulatórios da ABIHPEC, a mudança aumentaria o interesse da indústria pelo segmento, estimularia a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos no segmento de HPPC infantil e elevaria o número de lançamentos mais acessíveis e com maior benefício agregado para a saúde. “Como costuma acontecer quando ocorre aumento de com- petição, a concorrência maior pro- moveria investimento em novas tecnologias e levaria mais inovação aos consumidores”, acredita Renata. Outra conseqüência importante, especialmente neste momento do País, seria a geração de novos postos de trabalho ao longo das etapas de pesquisa, desenvolvimento, fabricação e comercialização de produtos.

Fonte: www.estadao.com.br